Apresentação

Tralha

 

 

A Arte da Usurpação
programa

 

La Ragione (pavana e saltarello) P. Hessen
La Morte della Ragione Anon


Batalha P. Arauxo
Tiento A. Cabezon
Canção A. Carreira

Daphne Anon
Almaine A. Holborne
The Fairie Round A. Holborne

Pavane, Galliarde, Basse Dance, Branle Simple, Branle Double, Branle Gay, Tourdion P. Attaignant

Fantasia Super Io Son Ferito Lasso S. Sheidt
Paduana, Allemade, Courante, Balletto, Sarabande J. Rosenmüller

Canzona Sopra la Bassa Fiaminga G. Frescobaldi
Sonatella A. Bertali

Nota: programa sujeito a alterações

Notas ao Programa

Um órgão com dinâmica, ou antes, um orgão com microdinâmica: assim se poderia definir em poucas palavras uma das combinações de instrumentos mais populares do Renascimento – o consort de flautas doce. E no entanto, apesar da grande quantidade de testemunhos literários e iconográficos que dão a esta orgânica um papel de relevo na prática instrumental polifónica, principalmente naquela realizada pelos inúmeros burgueses amadores dos principais centros mercantis europeus, são muito poucas as fontes musicais a ela destinadas. Ou seja, sabemos que Henrique VIII possuía uma colecção de mais de 50 flautas; que Isabel I de Inglaterra tinha ao seu serviço um grupo profissional de flautistas pagos magnificamente; que em Veneza um dos passatempos preferidos da burguesia era a prática da polifonia em famílias de instrumentos, sendo a de flautas uma das predilectas; que a família de flautas aparece referenciada nos principais tratados musicais do sec. XVI. Tudo isto e muito mais sabemos mas o principal permanece: em todo o sec. XVI não encontramos uma única obra polifónica com a atribuição per flauti; as do sec. XVII contam-se pelos dedos…
Evidentemente que pode e deve ser dito que a prática da atribuição de uma obra a um instrumento, ou a um conjunto de instrumentos, é algo que só surge bem dentro do sec. XVII. Mas por detrás desta evidência outra bem mais ténue se esconde, semi-encriptada na teia de referências às famílias de instrumentos renascentistas: É que A Arte do Consort é também A Arte da Usurpação. O programa apresntado é disso um bom exemplo, senão vejamos: num alinhamento constituído essencialmente por obras retiradas da charneira do reportório convencional para consort de flautas, apenas uma obra, a Sonatella de Bertali, foi pensada para um conjunto de flautas; a restantes são de origem vocal, para instrumentos de tecla, para violinos e baixo continuo ou não possuem qualquer indicação, destinando-se a ogni sorte di strumenti.
A Arte da Usurpação começa portanto no trabalho de transcrição mas são desde logo inúmeros os problemas de tradução que condicionam o trabalho interpretativo. Como construir um discurso musical sólido e coerente quando parte significativa da composição, o texto literário, se encontra ausente? Como conseguir que cinco executantes emulem o resultado obtido por oito dedos escravos de um único cérebro que coordena a defesa de uma ideia musical? E, a mais importante e utópica de todas, como levar o ouvinte à mais completa possível percepção do significado da obra musical não o condicionando pelo facto de se estar perante uma transcrição?

 


Inês Moz Caldas - Marco Magalhães - Paulo Gonzales - Pedro Castro - Pedro Sousa Silva