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O Conceito
O programa que apresentamos é a tradução de um reportório originário das primeiras décadas do século XVII português e sobrevivente num manuscrito residente na Biblioteca Municipal de Braga com o número 964. Embora não esteja expressamente indicado, a escrita indicia claramente um instrumento de tecla como destinatário do reportório, em particular o órgão.O ponto de partida para a nossa abordagem sonora é o tratado Harmonie Universelle de Marin Mersene publicado em 1635, no qual os consorts de flautas são comparados aos registos dos órgãos. Mersenne utiliza os termos “grand jeu” e “petit jeu” para explicar que se podem realizar combinações de flautas graves e de flautas agudas de forma a tocar o reportório polifónico na registação mais adequada a cada peça; Mersenne diz ainda que os 2 registos, grande (grave) e pequeno (agudo), podem ser usados simultanemente, declaração que intriga muitos dos estudiosos, pois pela descrição fornecida estes dois conjuntos não seriam afinados da mesma maneira, estando separados por um tom.Para a concretização do conceito sonoro, A Imagem da Melancolia utilizará um consort de 8 flautas de 5 tamanhos diferentes separados por quintas, cópia de um conjunto do séc XVI que se encontra presentemente no Museu de História da Arte de Viena. Para a execução de polifonia 4 partes, estes 8 instrumentos poderão ser organizados de 3 maneiras diferentes, inspiradas nas indicações de Mersenne e de acordo com a prática interpretativa polifónica do período: os 3 tamanhos mais pequenos, duplicando-se o do meio, formam o petit-jeu, que pode ser comparável ao registo de 4” (leia-se “quatro pés”) de um órgão; os 3 tamanhos maiores, duplicando-se o do meio, fomam o grand-jeu e correspondem a um registo de 8” de um órgão; a terceira possibilidade (não referida por Mersenne) é a de usar os 3 tamanhos intermédios (sempre duplicando o tamanho do meio) para criar um registo inexistente nos órgão e que poderemos chamar de 6”. Uma quarta registação é possível, utilizando simultâneamente o grand-jeu e petit-jeu, criando a ilusão do registo pleno de um órgão de tubos. Para ultrapassar o problema anteriormente referido das diferentes afinações do grande e pequeno jogo, A Imagem da Melancolia recorrere a transposições, prática igualmente documentada na tratadística da época.A utilização do órgão como fonte de inspiração tímbrica não se extingue na esolha dos registos mais adequados a cada peça. Procuramos também emular efeitos típicos do órgão, como o registo de “vox humana” por nós imitado recorrendo a uma verdadeira voz humana, ou a utilização de um registo diferente para uma das vozes polifónicas, o que no caso do consort de flautas é realizado usando duas flautas, em uníssono ou em oitava, para a mesma voz. Não nos limitamos porém a emular os recursos de um órgão, procuramos também seguir as indicações existentes sobre as práticas vocais da época e tentamos trazer ao nosso conceito sonoro e ideal interpretativo os recursos dinâmicos, agógicos e articulatórios caractarísticos do canto, afinal de contas o modelo renascentista para qualquer instrumento.O subtítulo deste programa (O Consort Português Mal Temperado) é obviamente uma piada, sugerida por Adrian Brown (o construtor da maior parte das flautas utilizadas) quando o esboço do conceito estava a ser preparado. É evidente a referência a uma das mais conhecidas obras de J.S. Bach, conhecida em português por “O Cravo Bem-Temperado” mas que mais correctamente deveria ser designada como “O Teclado Bem Temperado”. Nessa obra são apresentados 24 prelúdios e fugas em 12 tonalidades diferentes. O “tempero” refere-se ao facto dos sistemas de afinação utilizados no tempo de Bach não soarem igualmente em todas as tonalidades; por essa razão tornava-se necessário adaptar a afinação do instrumento à circunstância, considerando nomeadamente as tonalidades que irão ser utilizadas (todas no caso do Cravo Bem Temperado). “Temperamento” é o termo usado para designar este processo e cada um dos sistemas de afinação. No nosso programa, as obras são organizadas por “tons” e não por “tonalidades” (na realidade este último conceito ainda não existia no séc. XVI ou XVII). A definição de “tom” é algo de muito complexo e que nos ocuparia muitas mais páginas mas poderemos resumidamente dizer que cada um dos 8 tons é uma combinação única de harmonias e comportamentos melódicos que confere a cada obra um “sabor” característico. Assim, a nossa viagem ao longo dos 8 tons apresentará várias etapas diferenciadas em cores, atmosferas e afectos das obras executadas.Cada bloco “tonal” do nosso programa apresenta um estrutura comum, e daí o paralelo com O Cravo Bem Temperado. Cada bloco é constituído por “Entradas”, “Versos” (pequeníssimas obras que serviriam para intercalar ou preludiar momentos litúrgicos), por “Obras” e “Tientos”, peças de carácter contrapontístico tidas como antepassados da “Fuga”.
Finalmente, a questão do “tempero”: Tal como num teclado se torna indispensável encontrar o temperamento adequado a cada circusntância, e a razão do título da obra de Bach é precisamento porque é difícil encontrar um sistema de afinação que soe “bem” em todas as tonalidades, num consort de flautas a afinação é um desafio de uma vida e que pode fazer a diferença entre um conjunto de instrumentos maravilhoso que “emana música dos anjos” (para citar um ouvinte inglês do séc. XVII, após ter ouvido pela primeira vez um consort de flautas num espectáculo dramático) ou “um instrumento de tortura” (para citar qualquer pai de uma criança no ensino básico, quando o filho manipula a flauta que será usada na aula de Música).